Entrevista a Carlos López Cano Vieira

24 de abril de 2010
Em que consiste o Programa Internacional Global Village?

O Programa Internacional Global Village realiza-se anualmente na Universidade de Lehigh, na Pensilvânia. Foi criado a partir da Fundação de Lee Iacoca, que teve a excelente ideia de criar uma actividade que juntasse todos os anos jovens do mundo inteiro com o objectivo de estabelecer uma relação de estudos e de liderança empreendedora. Teve uma sábia ideia, uma vez que hoje, após dez anos da Global Village, foi criada uma rede e os jovens que participam ou que já participaram nas edições da Global Village consolidaram uma dinâmica que faz com que o mundo se torne mais pequeno, tendo cada jovem vários amigos pelo mundo fora. Deste modo, a ideia da Vila Global pode perceber-se: Vila é uma coisa pequena, familiar; Global é a perspectiva mundial.

Que papel desempenha neste Programa?


Em 2002 participei como aluno na Global Village, pelo que sou um professor convidado desde 2003. Ensino Estratégia Competitiva e todos os anos levo estudantes portugueses comigo. Também já levei uma aluna espanhola e outra de Angola.

Pode falar-nos acerca da sua filosofia, aprender a vencer?

Aprender a vencer é uma atitude perante a vida que não deve ser interpretada como ganhar ou ganhar a alguém. Vencer é, para mim, mais importante do que isso. Por exemplo, hoje não consegui aquilo que desejava: vencer é insistir, vencer é talvez aquilo que é mais importante do que um objectivo concreto, é a vontade de tentar uma e outra vez as coisas. Por exemplo, na minha mente não existem objectivos definitivos: há são objectivos ilimitados.
Vencer é superar-me a mim próprio, superar os outros é secundário. Vencer para mim é descobrir aquilo que me dá prazer e tratar, dentro do possível, de fazer com prazer aquilo que me dá prazer. Este é parte do segredo por trás do sucesso de qualquer pessoa.

O senhor faz parte, não só da Universidade do Algarve, mas também da Universidade de Lehigh, na Pensilvânia. Pode comentar um pouco as suas experiências nelas?

Sou professor na Universidade do Algarve, ensino Estratégia de Empresas e Teoria Organizacional na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo – ESGHT - e na Faculdade de Economia; todos os anos, desde 2003, sou professor convidado no Programa da Global Village da Universidade de Lehigh nos Estados Unidos.
A minha experiência em ambas as universidades é muito enriquecedora dado que sou capaz de comparar ideias e perspectivas. Sempre consigo chegar à conclusão de que temos diferenças importantes mas também descubro que as pessoas, para além das diferenças culturais, possuem mais coisas em comum que nos aproximam do que coisas que nos separam. Assim, é importante viajar, conhecer as diversidades e descobrir que o homem é, no fundo, essencialmente ele mesmo. A globalização é o fenómeno de um mundo integrado na sua diversidade, por isso o século XXI é fascinante: são os tempos dos processos de integração.

Quais pensa serem as principais diferenças entre a UALG e a Universidade de Lehigh?

Bem, nos métodos de ensino, aí vejo algumas diferenças, mais na forma do que no fundo, isto é, penso que a forma entendida como pedagogia é ainda, nos Estados Unidos, superior à nossa forma habitual de ensino. Estou a referir-me principalmente ao sistema universitário.
Cá em Portugal utiliza-se muito a simbologia da autoridade superior, ou seja, o professor, pelo mero facto de ser professor, é superior, neste caso superior ao aluno. É a ideia de que a função faz o homem. Na minha opinião, esta é uma ideia caduca, por isso muitos alunos em Portugal dizem “os professores não falam connosco, são distantes” (claro que sempre há excepções à regra). Penso que a superioridade é uma condição que bloqueia e que não ajuda ao desenvolvimento das pessoas. Qualquer pessoa que vá a uma universidade irá superar-se. A relação com o professor e com o conhecimento não se pode definir numa fronteira entre superior e inferior; a relação professor/aluno deve ser um fluxo de interesses para um objectivo em comum, descobrir juntos uma nova forma de ver o mundo e de desenvolver relações que melhorem substancialmente as relações interpessoais, depois entre as pessoas e a natureza em geral, ou seja, aprender a desenvolver sensibilidades e não fronteiras.
Deste modo, ultrapassamos a ideia de que “a função define o homem” e optamos por um novo conceito, que afirma que sempre “são os homens a definir a função”, ou seja, temos que superar as nossas falsas concepções e colocar o homem no centro das coisas, não para se tornar superior em relação aos outros ou à natureza, mas sim para ser o centro da sensibilização, aprender a interpretar a nossa evolução como espécie não controladora ou predadora mas sim como espécie sensibilizadora. Este é o grande desafio e a enorme responsabilidade da espécie humana, aprender a respeitar desenvolvendo sensibilidades e emoções ilimitadas mais do que controlar através de imposições e de raciocínios limitados.
Não todas as coisas requerem ser compreendidas para viver, há coisas que têm que ser aceites simplesmente, esse será o ponto de partida para assumir a nossa importância relativa e não absoluta como seres humanos, a ideia de que somos seres superiores deve deixar-se atrás face à ideia de que somos seres sensíveis.

Aconselha estudar no estrangeiro?

Estudar no estrangeiro passou de ser importante a fundamental. Actualmente temos um mundo globalizado, ligado pela internet, a televisão oferece hoje mais de duzentos canais em diferentes idiomas... O mundo já não é algo alheio: o mundo é na actualidade uma estrada que é obrigatório percorrer.

Quais são as principais origens dos estudantes da Global Village?

Na Global Village encontramos estudantes de mais de 50 países: europeus, asiáticos, africanos, latino-americanos, da América Central… Enfim, de todo o mundo.

Quais acha que são os maiores obstáculos para os estudantes estrangeiros e como pensa que devem ser ultrapassados?

Os obstáculos são ultrapassados pela intenção de querer ir. Um obstáculo poderá ser talvez pagar parte da inscrição, como sabes tudo tem um preço, mas quando se tem a ideia clara de que será um investimento fundamental para a tua vida, para o teu futuro, então aquilo que é obstáculo é superado.

Pode falar-nos acerca da Magic Wand Foundation e dos seus objectivos?

A Magic Wand Foundation é uma organização que ajuda jovens de diferentes países a afirmar os seus objectivos de vida, a fortalecer a sua identidade, a sentir orgulho pelas suas capacidades e a assumir com determinação o seu futuro. Uma das características do Programa da Magic Wand Foundation é que realiza os seus workshops num sítio onde tudo é possível, onde os sonhos se tornam realidade: na Disney World. É assim que num ambiente mágico se predispõem aos jovens a pensar com emoção e intensidade no seu futuro.

Para mais informações:

- Global Village
- Magic Wand Foundation

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